Filarmónica Instrução e Recreio Da Abrunheira
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19.MAI.2012
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OS PRIMEIROS TEMPOS

Em 1881, D. Luís I era Rei de Portugal e Rodrigues Sampaio o presidente do Conselho de Ministros.

Nesse mesmo ano era fundada a Filarmónica Instrução e Recreio de Abrunheira, então somente uma povoação divida pelas freguesias de Reveles e de Verride. Embora desde sempre se tenha comemorado o seu aniversário em Quinta-feira de Ascensão, talvez porque terá sido nesse dia a sua primeira exibição pública e, certamente por se tratar de uma efeméride de grande significado; o certo é que a actividade começou logo em início desse ano, tendo como grande impulsionador, mecenas e primeiro Presidente, o doutor António Marques Pinto.

Assim, em Janeiro de 1881 foram adquiridos os seguintes 21 instrumentos pelo preço total de duzentos e trinta e cinco mil e duzentos e trinta reis: 4 clarinetes, 1 requinta, 3 cornetins, 2 sax-trompa, 2 trombones, 2 barítonos, 2 contra-baixos, l bombo, 1 caixa forte, 1 caixa de rufo e 1 par de pratos. Os ensaios eram efectuados num edifício alugado, com uma renda anual de cinco mil reis por ano e à luz de seis candeeiros a petróleo.

A 3 de Abril foram aprovados os seus primeiros Estatutos, sendo registados no dia 7 de Dezembro de 1881, depois de aprovados pelo Conselho de Distrito em sessão de 21 de Julho do mesmo ano. Foram sócios fundadores, para além do já citado doutor António Marques Pinto, António de Oliveira, João Leal, António Pires Martinho, António Leal, Manuel Martinho, José de Oliveira, José Cachulo da Trindade, António Marques Graça, Joaquim Cardoso Mota, José Fernandes Lapo, João Fernandes Lapo, Pedro Costa, João Pedrosa, António Cardo, José de Oliveira, Manuel Rodrigues, Pedro Baptista, António Costa Guardado, António dos Santos, Manuel de Oliveira, José dos Santos Maurício, José Nunes, António da Costa Martinho, António de Oliveira, Joaquim Viso, Joaquim Martinho, José da Costa Martinho, José Maria Patrício, José Martinho, Viriato de Oliveira, António Martinho, José da Costa Rato, João Freitas, outro António Martinho, João Rosado Nunes Gaspar, Carlos Abreu, Manuel Cachulo da Trindade, Eduardo Augusto e José Monteiro.

Ainda em 1881, e para além dessa natural apresentação em Quinta-feira de Ascensão, a Filarmónica efectuou, também, nas Festas de Reveles, onde receberam 4 500 reis, e de Samuel, cujo cachet foi de 5 400 reis. Em 1882, 1883 e 1884 os serviços estenderam-se a Verride, Ereira, Seixo, Carapinheira, Montemor-o-Velho, Santo Varão, Liceia e Tojeiro (no concelho de Montemor-o-Velho), Alqueidão, Bom Sucesso, Santana (no concelho da Figueira da Foz), Palhais, Brunhós, Vinha da Rainha e Moinho de Almoxarife (no concelho de Soure), isto para além de acompanharem de treze funerais, sempre sob a regência de João Maria Baptista Pinto.

Em 1884 é adquirido o primeiro fardamento cuja confecção irá importar em 113.175 reis. É, também, neste ano que é aprovado um Regulamento interno onde constam, entre outras, as seguintes multas: por falta ao ensaio, 100 reis; falta a festividade, acto fúnebre e festa religiosa, 500 reis; falta de respeito ao mestre ou à Direcção, 200 reis e falta de respeito entre músicos, 500 reis. O mesmo Regulamento fixa a mensalidade do mestre em 2 400 reis.

Encabeçados pelo Visconde da Ponte da Barca e por Ernesto Nunes da Costa Ornelas, José Elísio da Gama Regalão, António Joaquim Simões, José Alves Guardado e presidida por António Pires Martinho de Brito, tinha a FIRA no ano de 1901 sessenta e oito associados.

Em 1905 a Filarmónica estreou novo fardamento, com bonés importados de Lisboa, via comboio, sendo as restantes peças confeccionadas pelos alfaiates da região a troco de muitos litros de vinho e de aguardente, para além dos respectivos honorários. No ano seguinte, agora sob a batuta de Alfredo Nunes de Serra e Moura, que havia assumido a regência no final do século, a banda irá actuar nas Festas da Rainha Santa, em Coimbra, e no Casino da Figueira da Foz. Este mesmo Maestro escreveria em l914 aquele que ainda é o hino da Instituição.

Por volta de 1915 a Filarmónica teve o seu primeiro grande revés, quando era regente, António Rodrigues Paula Santos. A deflagração da I Guerra Mundial e o consequente envolvimento de Portugal, vai originar a incorporação de músicos e familiares no Corpo Expedicionário Português, provocando a paragem da sociedade. A acentuar a crise, também, registe-se o forte movimento migratório para o Brasil. 

A SEGUNDA GERAÇÃO

A, Grande Guerra termina em 1919 e com o regresso da tropa, “por já se encontrarem em Portugal, portanto em Abrunheira, todos os sócios executantes que haviam sido mobilizados para o Corpo Expedicionário Português, motivo porque tinha deixado de funcionar com a regularidade precisa”, como justifica uma acta da altura, e por influência de uma comissão composta por José Graça Guardado, António Pais, Júlio Oliveira Martinho, José Pinto Coelho, Sebastião Alves Salgado, Eduardo Gois Nobre e João Gois Nobre e sob a regência do então jovem músico de 1.ª classe do Regimento de Infantaria 28, Carlos de Sousa Canais, ressurge a banda da Filarmónica e, nasce o Rancho Flores das Tricanas, por ora apenas a pagar uma renda pelo uso das instalações para os seus ensaios e com uma Comissão de gestão autónoma mas, que haverá de se integrar plenamente alguns anos mais tarde. Assume a presidência da sociedade, ainda nesse ano de 1919, o farmacêutico recém-chegado de África, Joaquim de Sousa Carvalho.

E com a vida nova surge também um novo fardamento, desta vez comprado no Porto. Os músicos são dezanove e, nesse ano, fazem as Festas do 1º de Maio e da Senhora da Graça, em Abrunheira, e, ainda, no Alqueidão, Moinho de Almoxarife e Reveles.

O maestro Carlos de Sousa Canais inicia neste ano um longo reinado à frente da banda que se estenderá até 1967, apenas interrompido por curtos períodos com a passagem dos senhores Manuel Pardal có-có, Manuel António (em 1928), Estevão Sehol (em 1932) e do sargento Olim (em 1937).

Durante o ano de 1928 é adquirida uma casa por 8 100 escudos que irá ser reconstruída e passará a ser a nova sede da FIRA. Essas obras de recuperação importarão em 8 850 escudos.

Os associados em 1931 eram 123, enquanto 21 pessoas davam corpo à banda e 11 jovens eram aprendizes de música. O Presidente era José d’Ornelas Regalão.

Em 1938, o acompanhamento de funerais pela banda, acontecimento comum na altura, deixa de ser gratuito para a área não abrangida no círculo formado pelas povoações de Reveles, Moinho de Almoxarife, Serroventoso e Verride.

Nos dias de 24, 25, 26 e 27 de Agosto de 1934 é inaugurada a actual igreja de Abrunheira, que vem substituir a velha e pequena capela de S. João, entretanto demolida e que curiosamente se situava junto à Sede da Filarmónica, nessa altura. No dia 25, para além das cerimónias religiosas realizou-se um “ Festival nocturno na Praça doutor José Regalão, maravilhosamente decorada e iluminada, em que colaboram a Filarmónica Instrução e Recreio de Abrunheira e um lindo e interessante Rancho de Tricanas, caprichosamente ensaiadas, que em coreto apropriado exibirão os melhores número do seu repertório”, como anuncia o Programa respectivo. Aliás, o Rancho voltará a exibir-se na tarde do dia 27. Era presidente da direcção, Eduardo de Gois Nobre. 

A TERCEIRA FASE

Com o advento da década de quarenta a FIRA torna-se mais ecléctica, já que para além da banda e do rancho, surgem Os Farras, uma jazz-band (como se designavam, então, os grupos de baile), um grupo de teatro (apesar de anteriormente se terem organizado, ocasionalmente, organizado récitas teatrais) e, também, projecções cinematográficas. Pela Sede irão passar filmes como São Francisco de Assis, Cais do Sodré, Coimbra, Ala Arriba, Homem do Ribatejo, Inês de Castro, Maria Papoila e Fado. No campo do teatro, para além dos espectáculos concebidos pelo seu próprio grupo, apresentam-se em Abrunheira companhias como o “Grupo Dramático Lusitano”, “Os Modestos” e a “Companhia Teatral de Lisboa”.

Em 1941 é eleito presidente, José Graça Guardado, que se manterá no cargo até 1964, apenas com interrupção nos anos de 1947 e 1948 (em que o presidente é Mário de Lima Viana), 1951 (António Luís Neves da Costa), 1952 (Armando Ferreira de Carvalho) e 1953 (António de Freitas Rosado, que voltará à presidência de 1965 a 1969).

No dia 17 de Junho de 1948 a banda desloca-se a Coimbra para participar na recepção oficial ao ministro da Economia. Em Agosto de 1953 é estreado mais um novo fardamento, que custou 8 365$00.

Em 1952 surge um incidente com Os Farras, o que provoca desentendimentos e abandonos no seio da banda. Este e outros motivos vão originar a subalternização da banda em relação ao rancho.

É por esta altura, que por razões políticas e rivalidades associativas se verificam profundas fissuras entre direcções e associados da FIRA e do Centro de Recreio Popular, que mais tarde se passará a denominar Casa do Povo de Abrunheira, chegando mesmo às fronteiras da confrontação física, sobreposição de iniciativas e, inclusivamente, divisões familiares. Esta situação arrastar-se-ia, infelizmente, no tempo, levando muito anos a ser ultrapassado.

É, pois, a partir de meados da década de cinquenta e até ao início da de setenta que o Rancho de Cantarinhas Flores da Tricanas, ensaiado por António de Freitas Rosado, terá a sua “época de ouro”, que o levará a actuar, por exemplo, nas festas de São João da Figueira da Foz e da Rainha Santa de Coimbra, no Casino do Estoril e em Castanheira de Pêra, Pampilhosa da Serra, Guarda, Curia, em Paço de Arcos (Lisboa) num festival organizado pelo Sport Lisboa e Benfica e culminará em duas actuações televisivas, no Porto, num programa de folclore apresentado pelo poeta e etnólogo Pedro Homem de Melo. Acontecimento deveras importante, já que na altura não era, de todo, muito acessível meio de comunicação.

Em 1958 é adquirido um aparelho de televisão (no ano anterior a RTP iniciara as suas emissões regulares), o que traz muita gente à Sede, pois os receptores são raros na época, pelo que passa a ser uma fonte de receita, visto ser necessário pagar bilhete para assistir às emissões.

A construção da actual Sede tem início em 1961 e vai estender-se por uma década.

Carlos de Sousa Canais, devido à sua avançada idade, deixa a regência da banda em 1967 e será substituído por António Gois Nobre, então subchefe da Banda da Região Militar Centro e natural desta freguesia. Este, assume a regência apenas durante alguns meses, pelo que a banda passa a ser provisoriamente regida pelo músico da Filarmónica José Graça. Logo depois, mais uma vez justificada pela guerra, agora a colonial, e pela emigração para a França, Alemanha e Luxemburgo, a banda entra em mais uma crise e praticamente se extingue, o que não sucede só porque terá irregulares e exíguas aparições até 1974, o ano da restauração plena. O contrário se passa com o Rancho que goza uma excelente fase e do Grupo Cénico, que nesse ano de 1967 apresenta a opereta A flor do Mondego e o drama Alucinação de Mãe. Em sessão de cinema aparece-nos o então célebre actor-cantor espanhol Joselito no filme Joselito, coração de ouro.

Em 1971,com o Padre João Castelhano a ocupar a presidência, e apesar da crise, são comprados 25 bonés e a Banda actua em Samuel e Vinha da Rainha, para além da festa de Abrunheira. 

A REVOLUÇÃO

A 25 Abril de 1974 o movimento dos capitães implanta a democracia no país através de um golpe de Estado revolucionário. Na Filarmónica, embora sem “golpe de Estado”, também acontece a “revolução”. Enquanto o Grupo Cénico apresentava a peça O Veterano da Liberdade, a direcção presidida por Carlos Martinho Rosado convida para a regência, Fernando Alves Pereira, que irá desencadear o reaparecimento efectivo da Banda e a restauração da Escola de Música, assim como um novo conceito de apresentações públicas, que passa pela renovação do repertório. Por esta altura concretiza-se a abertura da Banda ao sexo feminino, que em 2003 constitui mais de quarenta por cento do total dos seus membros.

Por iniciativa de senhoras residentes em Belide, surge em 1975 um Rancho Infantil que será adoptado pela FIRA e nesta casa se manterá até 1990.

A partir de Fevereiro de 1977 a Escola de Música sofre novo incremento com a duplicação de professores, já que para além do regente, também o músico António Maria Patrício Mota passará a dar aulas de solfejo numa colaboração que se estenderá até 1998.

Durante todo o mês de Maio de 1981 comemora-se o primeiro centenário, com Algir de Gois Nobre na presidência. Do programa constarão exibições dos Ranchos Folclóricos de Carapinheira, Ereira, Verride e Abrunheira, um concurso infantil, um baile, uma sessão de cinema, romagem ao cemitério e Missa e concerto pelas Bandas de Vila Nova de Anços, Cercal, Arazede, Verride e Abrunheira.

O Maestro Fernando Alves Pereira assumirá o cargo até 1983, seguindo-se-lhe, José Viso Marques, José Alves Garcia, Gonçalo Rocha e Ricardo Botelho.

Entretanto, em 1990 surgem graves problemas directivos, que chegam a atingir a abertura forçada de portas e ameaças de procedimentos judiciais, numa atribulada presidência do Dr. António Paiva Martinho.

Pacificada a Instituição, a Filarmónica de Abrunheira, sob a presidência de Armindo Pais de Almeida, fará parte do grupo de associações que a 9 de Junho de 1991 fundam a Federação das Filarmónicas do Distrito de Coimbra.

A ACTUALIDADE

A partir de 1993 o jovem António Luís Rodrigues Mota, músico da Banda Sinfónica da Polícia de Segurança Pública, assume o lugar de maestro, sendo José Duarte Rafael o presidente, retomando a Banda um ciclo de crescimento quantitativo e qualitativo. O António Luís Mota irá revitalizar a Escola de Música e “chamará” muita juventude de Abrunheira mas, também, de Reveles e de Samuel para a prática da música. É criada, ainda, a Banda Juvenil de Abrunheira que vem possibilitar aos jovens músicos a sua apresentação em diversos concertos.

A partir de 1997 a Banda atinge a meta dos 50 músicos nas suas fileiras e, para além dos seus serviços normais, apresenta-se em Festivais de Bandas em Eixo (Aveiro), Mira, Alenquer, Lisboa (Feira Popular e em Marvila), Entroncamento, Vila do Carvalho (Covilhã), Mira, Riachos (Torres Novas), Lagos, Alcácer do Sal, Almada, Castro Daire e em Gançaria (Santarém), entre outras localidades.

No dia 20 de Outubro de 1998 a Filarmónica filia-se no Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), depois de já em Março desse ano haver, finalmente, renovado os seus Estatutos, numa perspectiva de desenvolvimento artístico e patrimonial.

Em Maio de 1999 é alcançado mais um marco do seu centenário historial, já que é concretizado o seu primeiro trabalho discográfico, intitulado “Filarmónica de Abrunheira em Concerto”. Dois anos depois é gravado “Concerto d’Amore”, o segundo trabalho. Segue-se-lhe em 2002 a participação no Projecto “As melhores Bandas da Região Centro”, onde conjuntamente com outras 8 filarmónicas faz nova incursão pela produção discográfica.

Em 2004 grava um novo CD, intitulado “Reflexo”. A sete de Julho de 2001 é conferido à F.I.R.A. o diploma de reconhecimento de “pessoa colectiva de utilidade pública”, em despacho assinado pelo primeiro-ministro António Guterres.

O mês de Setembro de 2001 é o marco que assinala a internacionalização da Filarmónica de Abrunheira, conseguida com o intercâmbio com a Musikschule Steinheim, cidade do Estado alemão de Baden-Wurtemberg. Durante a estadia em território teutónico a Filarmónica apresenta-se em cinco concertos em outras tantas cidades daquele Estado e da vizinha Baviera.

No ano de 2001 é criado, no seio da associação, o Grupo Coral de Abrunheira, que se dedica, obviamente, à divulgação da música coral que era constituído por trinta e oito membros, dirigidos por Carlos Eduardo Fernandes, que também é músico e contramestre da Filarmónica, tendo este grupo cessado a sua actividade no ano de 2003.

Em 2002, a obra “O Dia Seguinte”, do dramaturgo Luiz Francisco Rebello, Assinala o ressurgimento do Grupo de Teatro. No ano de 2004 faz nova digressão à Alemanha, onde participa no “Festival Internacional de música de Kapfenburg”, conjuntamente com agrupamentos musicais da Rússia, China, África do Sul e Alemanha.

Além da participação neste “Festival” actuou também no Parlamento de Estugarda, em Neresheim e em Steinheim.

Em Julho de 2006 deslocou-se à Ilha do Pico – Açores para participar nas festas da freguesia de Santo Amaro, tendo realizado concertos na Ribeirinha, Santo Amaro e São Roque do Pico.

Actualmente, a FIRA tem em actividade a Secção de Música que engloba a Filarmónica, com um total de 60 músicos; uma Banda Juvenil e a Escola de Música; dirigidas pelo director musical António Luís Rodrigues Mota.

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