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Consultar os estatutos originais da Sociedade Filarmónica Paionense poderá constituir, nos dias que correm, um excelente exercício de boa disposição. Contudo, naquela altura ninguém achava graça, todos procuravam cumpri–los religiosamente, pois quem assim não procedesse, arriscava–se a pesadas multas. Esses primeiros estatutos da colectividade puniam, por exemplo, com 100 reis quem não comparecesse nos ensaios sem avisar previamente o director e com 500 reis quem faltasse ao “acompanhamento para a igreja do cadáver de familiares dos sócios”. A parada subia ainda mais para o lado do maestro, que podia ver–se obrigado a desembolsar até mil reis se não respeitasse a suas obrigações estatutárias.
Mas também havia regalias. Ao contrário do que acontece actualmente, os músicos, então designados por sócios, tinham o direito de receber dinheiro pelos espectáculos. Dos lucros dos concertos, um décimo entrava para os cofres da colectividade, o resto era equitativamente dividido pelos executantes.
Apenas as receitas das quatro festas mais lucrativas do ano eram integralmente canalizadas para a tesouraria da Sociedade, como fundo de maneio para pagar os remédios aos sócios mediante apresentação da respectiva prescrição médica. Hoje, desses tempos, apenas resta o rigor de uma banda com muita história.
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Será devido ao nível de exigência profissional e social que orientava os estatutos originais da Sociedade Filarmónica Paionense, em tudo idênticos aos da maioria das suas congéneres do resto país, que ainda hoje a banda se mantém afinada com certos valores? Independentemente da resposta, o certo é que a colectividade sobreviveu, com mais ou menos dificuldades, à mudança dos tempos e das vontades.
A mais recente alteração dos estatutos remonta a 1989. Nesse ano, e pela primeira vez, consagrou –se o direito de voto aos sócios. Até então, apenas os músicos podiam exercer esse direito. Foi o “25 de Abril” da associação. Uma pequena–grande revolução, que consagraria nela, finalmente, aquele que se tornou direito inalienável para qualquer sócio de qualquer colectividade do país.
Uma das características da Sociedade Filarmónica Paionense, que até pode ser considerada uma vantagem, é a não dispersão de energias por outras actividades para além da banda de música.
Não será, diga–se, por acaso. A colectividade encontra–se inserida num concelho onde existem, em média, cerca de uma dezena de associações por cada uma das 18 freguesias, que procuram desenvolver as mais variadas actividades desportivas, culturais e recreativas e, algumas delas, até apoio social, disputando assim, muitas delas, as mesmas valências no mesmo espaço territorial, o que as leva a dispersar esforços.
Ainda assim, com toda esta concentração de meios na música, a banda, com a passagem do tempo, foi deixando de ser atractiva para os jovens, que entretanto despertaram para outras formas de ocupar os seus tempos livres. Os elementos directivos, todavia, não se resignaram. Mantendo e revitalizando a escola de música, que já conta com uma dezena de alunos. Anualmente são feitas, acções de sensibilização junto das escolas, não só de Paião mas de outras freguesias vizinhas, a fim de incrementar a capacidade de recrutamento.
Com as sementes do futuro lançadas, os ventos sopram mesmo a favor da continuidade da banda.